Soja: Safra 2015/16 começa com retorno financeiro em reais positivo em todas as regiões

Em um cenário de dólar futuro, a moeda já chega a R$ 4,15 e potencializa o retorno financeiro da oleaginosa em reais, como mostra um estudo feito pela Agrinvest Commodities. O quadro para o retorno em dólares, por outro lado, já não é tão promissor e exige cautela.
Lucas de Campos 16 setembro, 2015 Fonte:

"O produtor vai entrar em uma safra positiva", afirma o consultor Vlamir Brandalizze , da Brandalizze Consulting, no final do vazio sanitário da soja para a safra 2015/16. Nesta terça-feira (15), termina o período proibitivo do plantio em alguns dos principais estados produtores do país, como Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e as expectativas, novamente, são de uma temporada importante para os sojicultores brasileiros, acreditam analistas e consultores. 

No entanto, esse novo ano começa com um cenário político e econômico turbulento no país e a espera de ainda muita volatilidade na taxa cambial. No mês, a moeda norte-americana já acumula um ganho de 5,15% e, no ano, essa valorização já chega a 43,45% até esta segunda-feira (14), quando fechou o dia valendo R$ 3,8138. Na sessão desta terça-feira, novas altas. 
Em um cenário de dólar futuro, a moeda já chega a R$ 4,15 e potencializa o retorno financeiro da oleaginosa em reais, como mostra um estudo feito pela Agrinvest Commodities. O quadro para o retorno em dólares, por outro lado, já não é tão promissor e exige cautela. 

E a variação da taxa cambial toma toda a atenção dos produtores neste momento, uma vez que seu impacto é avaliado não somente na formação dos preços de venda, mas principalmente nos custos de produção desta nova temporada. 

Considerando custos de produção que variam de R$ 2.451,52 – no Mato Grosso do Sul – a R$ 3.063,78 – no Sudeste de Mato Grosso – por hectare – com um dólar de R$ 3,11 na compra dos insumos – a Agrinvest traçou dois cenários para o retorno financeiro da soja. Em reais, as principais regiões produtoras da oleaginosa contam com lucros em todas elas; enquanto em dólares, os prejuízos já são esperados. 

Safra de Soja 2015/16 - Custos - Fonte: Agrinvest Commodities

Safra de Soja 2015/16 – Custos – Fonte: Agrinvest Commodities

"O segmento da alimentação brasileira, ou mundial, não vai parar, vai continuar crescendo. A grande questão neste ano comercial  é que o produtor está entrando em uma safra onde os preços atuais em Chicago estão abaixo dos US$ 9,00, bem abaixo do que se via há um ano. Então, a situação é de um quadro com sinais de que ele vai continuar a ganhar, mas, aparentemente, os ganhos em dólar serão menores e a saída do produtor para continuar ganhando bem é fazer o melhor possível dentro da lavoura", explica  Brandalizze. 

Assim, em um cenário com  o contrato maio/16, referência para a safra brasileira, valendo US$ 8,74 por bushel na Bolsa de Chicago, mais um dólar futuro de R$ 4,15 e prêmios variando entre 15 e 40 centavos de dólar sobre os valores da CBOT nos principais portos do país, o retorno em real da soja é positivo em todas as praças. O destaque é o estado do Paraná – com R$ 1.108,75 por hectare, e o valor mais baixo registrado ficou por conta do nordeste de Mato Grosso, onde o resultado seria de R$ 354,30/ha. 

Safra de Soja 2015/16 - Retorno em Real - Fonte: Agrinvest Commodities

Safra de Soja 2015/16 – Retorno em Real – Fonte: Agrinvest Commodities

Ao mesmo tempo, considerando exatamente as mesmas condições de mercado, o retorno em dólar, ainda de acordo com o levantamento feito pela Agrinvest, seria positivo somente no Paraná, no sul de Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul. Os valores de retorno, nestes casos, seriam de US$ 60,48; US$ 34,33 e US$ 22,26 por hectare, respectivamente. No Rio Grande do Sul, em Goiás, no Oeste, Norte, Sudeste e Nordeste de MT, o quadro já seria de prejuízos variando de US$ 18,89 a US$ 131,52/ha.

Safra de Soja 2015/16 - Retorno em Dólar - Fonte: Agrinvest Commodities

Safra de Soja 2015/16 – Retorno em Dólar – Fonte: Agrinvest Commodities

Diante desse cenário, o consultor da Brandalizze Consuluting volta a afirmar que a alternativa do produtor, além de uma comercialização bem planejada, é a garantia de uma boa produtividade. Ele explica ainda que o produtor que colhe de 58 a 65 sacas de soja por hectare continua ganhando.   

"Temos condições de melhorar a produtividade. O produtor vai hoje para uma safra de soja e em seguida uma safrinha de milho, que já se mostra positivo para 2016 (…) Para o produtor garantir essas duas safras ele tem que fazer um bom plantio da soja no período recomendado, para entrar na sequência com o milho safrinha e ganhar com ele também", diz. 

Comercialização

Até o início de setembro, o Brasil já havia comercializado pouco mais de 30% da safra 2015/16 de soja. O índice é elevado e reflete a postura do produtor diante dos últimos rallies registrados, principalmente do dólar, além dos melhores preços que vinham sendo praticados em Chicago. Com o suporte do câmbio e dos prêmios, no melhor momento do ano, as cotações nos portos chegaram aos R$ 85,00 por saca. 

"No primeiro rally do dólar no Brasil que o dólar subiu a R$ 3,10 e elevou o dólar futuro para a safra a R$ 3,40, motivou vários sojicultores a fazer venda de soja futura, e quem teve que fazer um hedge nesse dólar foram os compradores, ou seja, as tradings, as cooperativas, cerealistas (…) Então, para essas empresas que têm que margear essse dólar futura na bolsa ou nos bancos, isso requer uma grande linha de financiamento", explica Marcos Araújo, analista de mercado da Agrinvest Commodities. 

O momento agora, porém, é de um ritmo de vendas bem menor do que o que vinha sendo observado há alguns meses. "Boa parte dos produtores está esperando agora o desenrolar de toda essa incerteza política que está impactando sobre o dólar; temos todo o risco climático de produção, então, os produtores estão reticentes a efetuar novas vendas aguardando o início do plantio da soja e uma recuperação dos preços em Chicago", diz o analista. 

Araújo afirma ainda que esse pode não ser o melhor momento para que novas vendas sejam efeutadas dado que o padrão, em 30 anos de negócios em Chicago, é de que as mínimas para os preços da soja sejam apresentadas agora no final de setembro, com uma recuperação vindo depois desse período. "Eu não diria, portanto, que esse seja um momento de tomar grandes decisões de venda olhando isoladamente Chicago. Mas, se o sojicultor olhar a curva de dólar futuro, é muito favorável para aquele que tem seus custos em reais", conclui.

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