Soja: Estiagem na safra passada acelera investimentos em sistemas de irrigação

Foto: Richard Pereira / Divulgação
Sepé Tiaraju 12 janeiro, 2019 Fonte: Correio do Povo

Um ano depois da estiagem que provocou prejuízos milionários na Metade Sul e levou 40 municípios à situação de emergência, produtores de soja daquela região lançaram mão ou ampliaram medidas para minimizar os riscos e alcançar melhores resultados na atual safra. Ainda que neste ano os prognósticos climáticos indiquem condições bem mais favoráveis que as do ciclo passado, nos últimos meses observou-se um aumento de projetos de irrigação por pivô central em áreas de várzea, prática até então incomum em muitos municípios sulistas.

Além disso, há mais investimentos em drenagem, atenção redobrada à época de semeadura e até o uso intensivo de agroquímicos como o 2,4-D para controle de ervas daninhas. O coordenador do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) na Zona Sul do Estado, André Matos, disse notar a adoção de irrigação em solos de várzea, com foco na produção de soja, em lugares que não têm tradição de usar pivôs centrais, como Jaguarão, Piratini, Pedras Altas e Santa Vitória do Palmar (foto). “É algo inovador para esta região arrozeira”, afirma Matos.

Diretor de uma das empresas que vendem equipamentos de irrigação, a InfoSafras, Henrique Levien percebeu aumento de 100% na procura e na instalação de pivôs centrais nas áreas baixas, em 2018. Também foi expressivo, segundo ele, o crescimento da irrigação por sulcos. Para Levien, as perdas provocadas pela estiagem, que durou mais de 40 dias entre janeiro e fevereiro do ano passado, acenderam o alerta para a necessidade de precauções. “Fomos para a Expodireto em março com baixa expectativa e acabamos fechando muitos negócios”, recorda, revelando esperar boas vendas também nas feiras deste ano. Os números explicam.

Em áreas da Metade Sul que não contavam com irrigação e que foram castigadas pela falta de chuva no último ciclo, a colheita variou de 12 a 40 sacos por hectare. Já as lavouras que contavam com algum sistema de irrigação obtiveram mais de 60 sacos por hectare.

Em zonas de várzea também houve ampliação do interesse por projetos de drenagem que cumprem o papel de retirar o excesso de água do campo no tempo adequado. A técnica é defendida pelo professor do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria (Ufsm), Enio Marchesan, como um dos primeiros pontos a serem observados por quem produz em tais terrenos.

Se o déficit de umidade no solo comprometeu o rendimento na safra passada, no atual ciclo houve excesso de chuva na fase do plantio, problema minimizado por uma boa drenagem. “Para ter uma produção sustentável, duradoura e com alto potencial, o produtor precisa pensar em irrigação e drenagem”, recomenda Marchesan.

Da safra passada para a atual, o número de projetos de drenagem executados pela WR Assessoria Agrícola cresceu 50%. “Há a preocupação de melhorar a produtividade, até porque a soja se tornou uma parceira muito importante para o arroz nas terras baixas”, diz o diretor da empresa, engenheiro agrícola Antoniony Severo Winkler.

Embora a produção de soja esteja consolidada na Metade Sul, o desafio é conseguir tornar a oleaginosa estável na região, que ora padece com a seca, ora sofre com drenagem deficiente em função das características topográficas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram crescimento expressivo da área plantada, de 378 mil hectares em 2007 para 1,04 milhão de hectares em 2017, mas dificuldade para manter a produtividade sem grandes oscilações, tendo registrado altos e baixos na última década.

Apesar do aumento de projetos na Metade Sul, Winkler observa que há inovações que ainda não estão disseminadas na região, muito em função do mau momento econômico que atravessa a cultura do arroz. “Apesar de terem vontade de investir e conhecer bem os problemas das terras baixas, muitos produtores vão adiando algumas ações por conta até da própria descapitalização provocada pelo arroz”, avalia Winkler.

O assistente técnico estadual de sistemas de produção vegetal da Emater, Alencar Rugeri, também diz não perceber investimentos de forma generalizada no Sul, justamente a metade do Estado que mais necessita de estratégias para diminuir os riscos. “Os desafios não são intransponíveis, mas exigem muito investimento”, comenta. Rugeri observa ainda que há muito arrendamento de terras na região, o que dificulta a disponibilização de recursos para a melhoria de solos.

Enquanto práticas como a rotação de culturas e melhor manejo das áreas não são efetivados, Marchesan observa que os agrotóxicos acabam tendo uso intensivo e, com o tempo, perdem eficiência. Em 2018, aumentaram as queixas de produtores de uva e oliveiras em relação à deriva do herbicida 2,4-D em diversas regiões. “Os problemas da soja não se resolvem só com herbicida”, afirma. “Há que se trabalhar visando a sustentabilidade das lavouras e vida longa às tecnologias, com manejos corretos.”1

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