Recurso mais caro e preço podem derrubar área de soja

NULL
Lucas de Campos 18 junho, 2015 Fonte:

Acostumados a puxar a produção brasileira de soja, os agricultores de Mato Grosso convivem atualmente com incertezas e já até há quem aposte que o cenário econômico mais difícil, com crédito caro e preços da oleaginosa em baixa, provoque a primeira redução de área plantada de soja no país desde 2006. No mercado, há relatos de produtores devolvendo áreas arrendadas em decorrência das margens negativas.

Conforme o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, a redução de área plantada com soja no país é uma \”tendência\”, pressionada especialmente pela porção norte de Mato Grosso. Segundo ele, esse quadro reflete a postura mais \”seletiva\” dos bancos na concessão de crédito, mesmo com o aumento dos recursos no Plano Safra 2015/2016.

\”Entre o que está disponível e o que vai ser efetivamente emprestado está a grande dúvida\”, disse Pessôa, em entrevista ontem, durante a 14ª edição do \”Seminário Perspectivas para a Agricultura\”, realizado pela BM&FBovespa e pelo Ministério da Agricultura.

Para o analista, a maior \”seletividade\” dos bancos vai afetar sobretudo grandes produtores do Centro-Oeste do país e especialmente os produtores que estão muito alavancados após a aquisição de máquinas e terras. \”Com a margem do ano que vem, que é estreitíssima, muito banco médio vai preferir não emprestar, até porque têm receio de que a inadimplência apareça\”, afirmou ele. Com isso, os agricultores devem optar por plantar em uma área menor.

Pelas projeções da Agroconsult, a margem do produtor de soja de Mato Grosso deve ficar em cerca de R$ 200 por hectare na safra 2015/16, bem abaixo dos mais de R$ 700 vistos na temporada 2014/15. \”A margem é muito baixa [e na conta] não tem arrendamento e custos administrativos. Se considerar todos os custos, ela tende ao negativo\”, disse.

Durante o seminário, o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Ricardo Tomczyk, também mostrou preocupação com a efetiva liberação dos recursos do Plano Safra, anunciado na semana retrasada. \”Entendemos que será um ano bastante difícil. Os próprios bancos deverão ter um aperto maior e o nosso temor é que mesmo anunciando mais recursos, esse recurso não seja mais alcançado pelo produtor\”.

Segundo Tomczyk, os produtores da região médio-norte de Mato Grosso, onde está boa parte das áreas de plantio recente e o custo para escoar a produção é maior, precisam da soja cotada a US$ 10,50 o bushel para atingir o \”breakeven\” e manter o apetite por expansão. No entanto, o preço do grão está abaixo disso, e continuar ampliando áreas é arriscado. Para Tomczyk, porém, o efeito de \”inércia\” ainda pode levar agricultores a ampliar áreas em Mato Grosso, mesmo que isso tenha efeitos negativos. \”Há possibilidades de ver companheiros saindo da atividade\”, previu o dirigente.

Segundo Fernando Pimentel, da consultoria Agrosecurity, em Mato Grosso e em Goiás há casos de produtores devolvendo áreas arrendadas. \”Ainda é pontual\”, disse, mas o quadro reforça o cenário de menor área plantada.

Na avaliação de Fernando Muraro, diretor da consultoria AgRural, a situação de Mato Grosso é uma \”incógnita\” e pode mesmo haver redução de plantio no Estado, em especial em áreas tomadas de pastagens há poucos anos, e que ainda têm produtividade mais baixa ante a média das áreas consolidadas. Segundo Muraro, só haverá mais clareza sobre a real redução de área em 60 dias. \”Se os preços da soja subirem, pode até haver aumento de área\”.

A avaliação é compartilhada por Júlio Piza, CEO da BrasilAgro, uma das maiores produtoras agrícolas do país. Segundo ele, o crédito caro e escasso pode afetar a produção de agricultores de médio porte, principalmente em regiões de expansão recente. \”É possível, principalmente em regiões não consolidadas. Mas se efetivamente vai acontecer é difícil dizer\”, argumentou.

Se a situação da margem suscita temores sobre a área plantada em Mato Grosso, na região Sul há certeza de aumento do plantio, com a soja avançado sobre áreas de milho, cujos preços estão em baixa. Os analistas divergem, porém, se o Sul compensaria a queda do Centro-Oeste.

Ainda no seminário, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, reafirmou a expectativa de abertura do mercado de carne bovina dos EUA. Segundo ela, o anúncio deve ocorrer no fim deste mês, durante a visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA. Efetivamente, porém, os embarques só poderiam começar em agosto, previu Kátia, com base nas análises de técnicos dos dois países.

Fonte: Valor Econômico

© Copyright 2017, Todos os direitos reservados.