Especialista alerta que mortandade das abelhas poderá afetar a cadeia produtiva de alimentos

Sepé Tiaraju 25 maio, 2019 Fonte: A Tribuna

A mortandade de abelhas é um fenômeno mundial. No Brasil a situação não é diferente. Desde 2015, no Rio Grande do Sul, começou o aumento do registro de mortes de abelhas que tem um importante papel na polinização de plantas na natureza. A situação colocou em alerta os apicultores gaúchos. Dados mostram que de dezembro do ano passado até o momento foram mais de 400 milhões de abelhas mortas em diferentes regiões do Estado.

Em entrevista ao programa Aldeia Global, o professor da UERGS de São Luiz Gonzaga, Rafael Meirelles, doutor em Entomologia pela UFGRS com doutorado e pós-doutorado em abelhas, falou da sua preocupação com essa realidade. Ele explicou que o aquecimento global, a redução das matas e aplicação indiscriminada de agrotóxicos são fatores que têm contribuído para o aumento da morte das abelhas no Estado. No entanto salientou que o uso indiscriminado de agrotóxicos é o fator que vem desencadeando a mortandade de abelhas no Estado. “Mais de 30 laudos foram emitidos por especialistas na área atestando que o uso de inseticida a base de fipronil eram subletais de abelhas.”

Rafael Meirelles observou que as abelhas já vinham tendo seus enxames enfraquecidos pela aplicação de defensivos nas lavouras. “Nos últimos três anos, porém, a situação se agravou. As abelhas tornaram-se mais sensíveis. Temos uma pesquisa que mostra propriedades que em apenas um ano aplicaram de duas a três vezes agrotóxicos para o combate à lagarta. Teve casos que não havia necessidade de tantas aplicações. Penso que essa medida somente deve ser adotada caso necessário”, disse o especialista em abelhas.

Apesar de ser um defensor do cultivo agroecológico, Rafael reconheceu a dificuldade de se abandonar o método tradicional de cultivo devido à escala de produção. Mesmo assim acredita que poderia ser reduzido o volume de defensivos agrícolas nas lavouras.

MIGRAÇÃO DE ABELHAS

Um trabalho feito pela UERGS de São Luiz Gonzaga constatou um novo fenômeno. Enquanto algumas espécies específicas de abelhas nativas que dependem de árvores nativas estão desaparecendo há outras que conseguem se adaptar migrando para a área urbana. “Constatamos aqui em São Luiz Gonzaga que há mais abelha na cidade do que no meio rural. Na área da universidade de 300 hectares registramos apenas 27 enxames. Enquanto nos parques da área urbana mais de 40”, revelou Rafael.

Há casos mais preocupantes afirma o especialista. Os números mostram não apenas a diminuição delas, mas também a sua extinção nas matavas nativas. “A mandaçaias, um tipo de abelha nativa sem ferrão, praticamente desapareceram das matas. Existem apenas em cativeiro. Isso é um sinal de alerta para todos.”

PRODUÇÃO DE ALIMENTOS

Outro dado preocupante apresentado por Rafael Meirelles refere-se aos reflexos da extinção das abelhas polinizadoras na produção de alimentos que poderia provocar uma redução entre 70 a 80%. No caso da soja, Rafael explica a queda seria de 30% na produção; amêndoa (100%); maçã (90%); morango e algodão (20%); e nas flores amazônicas iria interferir em 80% das espécies da mata.

A alternativa apontada para amenizar esse quadro de mortandade seria o uso racional dos defensivos agrícolas. “A ruptura com esse modelo de produção é economicamente inviável hoje. Os agricultores poderiam fazer o uso racional de defensivos, apenas quando realmente necessário. A dizimação das abelhas poderá resultar em grande prejuízo econômico aos produtores.”

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