Após menino ser espancado até a morte, moradores deixam condomínio em Pelotas

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Lucas de Campos 18 março, 2015 Fonte:

Jovem de 14 anos foi vítima da violência que assusta o residencial do programa Minha Casa Minha Vida

A morte de Cassiano Barcelos Rodrigues, 14 anos, completa uma semana nesta terça-feira (17). O menino não tinha antecedentes criminais e foi espancado por usuários de drogas na praça do condomínio popular onde morava, no loteamento Dunas, em Pelotas. O residencial Jardins do Obelisco, que atinge faixa 1 (para moradores de baixa renda) do programa Minha Casa Minha Vida, é praticamente uma terra de sem lei. Após a tragédia, ao menos quatro famílias já deixaram suas casas – mesmo sem ter para onde ir.

Desde que os prédios foram entregues, no final de 2011, usuários de drogas frequentam o local e não há intervenção do poder público. Mesmo com preço praticamente simbólico, em torno de R$ 45, a maioria dos moradores não contribui com o condomínio. Por isso, síndicos representam cada bloco e são responsáveis por arrecadar o dinheiro com alguns poucos vizinhos. Eles repassam para um bloco específico, que acaba pagando toda a conta de água e de luz do residencial. O valor cobre os custos de quem paga e de quem não paga pelo serviço.

A responsável por um dos blocos conta que só desempenha a função porque precisa garantir a energia elétrica para a casa. Dona de casa, cuida dos três filhos com afinco, para que não sejam vítimas da violência. O marido trabalha o dia fora e ela enfrenta a hostilidade de muitos moradores. “Já furaram pneu do meu carro, deixaram bilhete que iam me matar. É muito dolorido”, relata. Segundo ela, se no financiamento da Caixa Econômica Federal fosse descontado também o valor do condomínio, a logística seria mais fácil. “Eles entregam para a gente administrar. Mas aqui só mora quem não tem estudo, sem esclarecimento para gerir uma administração. Como vai dar certo?”, questiona.

Por falta de pagamento do condomínio, não há vigilância nos prédios há mais de um ano. As guaritas estão abandonadas e pichadas com referências ao uso de drogas, assim como o salão de festas e as áreas de convivência. Os jardins estão com capim alto e o lixo se acumula por toda parte.

Assassinato

A morte de Cassiano é considerada pelos moradores como uma tragédia anunciada. Na noite da última terça-feira (10), ele ouvia músicas no celular com um amigo, em um banco na parte de trás do residencial, quando foi abordado por um jovem de 18 anos e três adolescentes que cheiravam solvente. Um deles tinha apenas 12 anos. Eles espancaram a vítima até a morte com um pedaço de pau. O amigo conseguiu fugir e avisou a mãe de Cassiano, a empregada doméstica Rosane Barcelos. De carona com um vizinho, foram até o Pronto Socorro, mas o menino não resistiu. 

Era o mais novo de dois filhos, o único que ainda morava em casa. No quarto, ainda estão as fotos na parede, um quadro com as normas da casa e uma medalha de participação de uma competição escolar. As roupas foram doadas. Deram lugar no guarda-roupa a cartazes e faixas utilizados em protesto pedindo por Justiça, no último sábado (14). Na escola municipal Núcleo Habitacional Dunas, o aluno era considerado tranquilo e amigo de todos. Muito tímido, foi desestimulado a brigar pela mãe. “Talvez se eu tivesse ensinado a revidar toda vez que mexessem com ele… Mas não dá para ficar pensando muito. Tinha medo que alguém morresse aqui, mas nunca pensei que fosse ser o meu filho”.

Os três adolescentes suspeitos pelo crime estão apreendidos no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case). O jovem de 18 anos está no Presídio Regional de Pelotas (PRP). 

Segurança no loteamento

O Dunas é um dos locais mais violentos de Pelotas, segundo o delegado Rafael Lopes. Junto com Navegantes, Pestano e Getúlio Vargas, é a região com maior número de ocorrências policiais – principalmente em relação ao tráfico. “Concentra a população pobre e que é reprimida pela insegurança. Muitas vezes falta denúncia para fazer o trabalho policial”, afirma. 

No caso do Jardins do Obelisco, a fiscalização é complexa pois se trata de um condomínio privado. Portanto, nem Polícia Civil nem Brigada Militar seriam responsáveis pela segurança. “Nós só podemos entrar quando houver uma ocorrência policial ou denúncia. Fora isso, a corporação não pode entrar em área privada”, afirma o tenente coronel do 4º BPM, André Luis Pithan.

Posição da Caixa

Segundo a assessoria da Caixa Economica Federal, após a entrega do empreendimento, não há mais nenhum envolvimento da instituição. O residencial Jardins do Obelisco recebeu um trabalho social da Caixa entre a entrega, no final de 2011, e setembro de 2012. 

Novo empreendimento 

A 400 metros do Jardins do Obelisco, outro residencial do Minha Casa Minha Vida está sendo construído. Com investimento de R$ 15,36 milhões, o condomínio será entregue em outubro deste ano. Construído pela mesma empreiteira, a ZECON Engenharia, o empreendimento também terá 240 apartamentos e voltado a moradores de baixa renda.

Posição da Prefeitura

Em entrevista ao Gaúcha Repórter desta terça-feira, a secretária de Justiça Social e Segurança de Pelotas, Clésis Crochemore, disse que o Executivo pretende reunir os contemplados do novo empreendimento para não repetir a situação do Jardins do Obelisco. Segundo a titular da pasta, serão feitas ações educativas sobre administração condominial e socialização. “Nós fizemos isso com o residencial Aragano e, mesmo ainda com alguns problemas, tivemos resultado”, avalia.

De acordo com Clésis, há um resíduo financeiro da Caixa para a execução de trabalho técnico social no condomínio. A Prefeitura estaria articulando um projeto para poder utilizar esse dinheiro.

Fonte: Rádio Gaúcha

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